Airbus

14/06/2009 at 10:14 pm | In Uncategorized | Leave a Comment

Nunca disse que sabia das respostas. Mesmo assim, ele as cobrou. Com imposto de renda descontado previamente levando na nota fiscal uma observaão sobre os possíveis encargos que deveriam ser debitados em sua conta: humilhação, frustração e baixa-estima estariam listadas, com certeza.  Mas a conta deveria ser paga conjuntamente. As minhas escolhas e os seus desvios. Os meus pares de dúvidas e as suas embalagens de silêncio. Entretanto, os bens compartilhados – agora estilhaçados no hall – foram devidamente endereçados para destinos díspares, separados dos amendoins que comeríamos no próximo vôo. 

O meu e o seu coração eram cada um em um canto da caixa, enviada para o setor dos ’objetos frágeis’. Frágil uma ova! Havia sido pisado, massacrado e mutilado quantas vezes até ser atirado janela a fora pela prepotência das elucidações humanas? O fato é que esta parte, de que se diz fundamental do ser humano, batia perversamente dentro de uma caixa instável e duvidosa que era o meu corpo.

E que fazer então, com os destinos devidamente programados dentro de um painel mecânico que nada dizia a meu favor a não ser que você teria sua isenção em pouco menos de umas horas?? O que dizer se alguém lhe diz que o melhor é investir em seus próprios negócios ou  num mercado externo, mais promissor que as antigas fontes de renda? Não faria a mínima diferença, de qualquer forma, e a minha rotina era assistir sempre a fuga do capital e a desvalorização local. O que lhe faria ficar, não seriam alguns poucos números no seu celular, ou no seu pager – mas pager não é algo que se use hoje em dia! – apenas quando se é um homem de negócios. Me confortei e tentei olhar o mercado local, mas os investimentos pareciam tão indiferentes para uma transação tão profunda.

 Acho que não é hora de mudar de política. Nem era hora de iniciar uma nova aplicação. Seria muito mais fácil concentrar as energias em um negócio seguro, confiável e aberto para reformas. O meu coração estava sempre aberto, mas você nunca entendeu, nunca conseguiu, nunca procurou. Você, nunca.  Recusou até as commodities que estavam atreladas. Não basta dar a volta, é preciso entender a curvatura. E eu precisava entender de economia pra te entregar qualquer coisa inteligente ou eloquente. Nenhum dos dois, mas que fosse convincente.

A essa hora caberia a mim digitar os números na telinha digital? É o que de vez em quando, agora, eu me pergunto quando olho pra você, desse jeito de quem não sabe pra onde foi. Porque eu olho todos os dias, e não dá pra não fazer isso, e nem dá pra te escutar. Quer dizer, dá pra escutar, mas só dentro da minha cabeça. Aí eu tampo os ouvidos com as duas mãos pra ficar só eu e você nesse momento de privacidade auricular. E eu bem que podia fazer você partir logo. Mas não dá. Na verdade, você pega aquele avião todos os dias, e todos os dias eu me vejo segurando aquela caixa de frágil nas mãos, cujo interior tem um músculo pulsante mutilado, massacrado e pisado num canto sozinho, mas pulsante. E lá, todos os dias tentando decidir se despacho ou levo na mão.

Mentira, a dúvida é se despacho pra Tóquio ou pra Nova York. Nova York que é sempre pra mim, e Tóquio que é sempre pra você. Mas são tão iguais. E tão diferentes. E na verdade eu nem estive em nenhuma delas. Mas quando fui a Tóquio, todas as ruas eram azuis e todas as esquinas eram vermelhas. E todas as luzes brilhavam e todas as cores te desenhavam. E eu bem queria me desmanchar em trinta mil pedacinhos, pra caber nos trinta mil pensamentos que eu via brotar da sua cabeça.

Mas no fim, nunca soube dizer mesmo o que é isso. Ou sei: investimento de risco.

Subnutrido

18/05/2009 at 1:01 am | In poesia | Leave a Comment

Leva o açoite e incendeia

Chama por quem tem ouvidos

De aço

Aparece um desabafo

um suspiro

Procura por algo e nem sabe o que é

Procura por algo e nem sabe quem é

Suspeita do mundo como um anjo caído

Se joga na rua

E na ignorância

Partida e lançada, se veste na sua

Voa longe a discrepância

Anuncia ao vento, a sorte

E a interrogação dos exaustos

Smile

09/03/2009 at 1:16 am | In crônica | 2 Comments
Tags: , ,

Ela olhou por dez segundos contados, não no relógio, mas nos dedos. Dez segundos e nada mais. Podia olhar pra frente agora. Podia fingir um sorriso daqueles que só ela conseguia forjar. E o pior – eles acreditariam! Acreditariam, porque sempre todo mundo acredita. À sua volta uma multidão de pessoas desconhecidas – corações incoerentes, não dariam mais de dez anos a valer pelo sorriso. Os sorrisos dos dez anos são incomparáveis. E ela, já com uns contáveis vinte e poucos, era um atriz e tanto. Merecia um Oscar, um Globo de Ouro, ou o que for. Nem se importava se lhe dessem um Pulitzer. Sempre funcionava e sempre funcionaria. O sorriso.

Ainda quando criança, gostavam de ressaltar esse traço, tão sutil, tão simpático. Gordinha, baixinha e desengonçada, mas… ah! Que sorriso! Roubaria corações durante muito tempo, se aprendera a manipular seus dotes. Na adolescência, a malícia se escondia com perfeição atrás da doçura dos brancos dentes em linha curva. Rapazes e moças se deixavam levar, como que enfeitiçados por uma fada. Não há o que duvidar diante de fadas. São benevolentes, altruístas, e incrivelmente sagazes, além de possuírem os melhores sorrisos. Porque outra razão seria uma fada, a guardiã dos dentes, senão pela habilidade milenar de cativar por sorrisos? Já diziam os mais antigos, a janela da alma condiz aos olhos. Aos dentes, sobrou o cinismo – se traduz, sociabilidade.

Ela não era cínica. Não no sentido pesado da palavra, não tentava enganar as pessoas. Se há alguém mais afetado pelo seu sorriso de fada, fora ela própria. No mais, o passar de ano no segundo colegial se dera mais por conta da benevolência sexual do professor que por ela própria. Não havia culpa em suas recordações, e elas eram bem nítidas. Entrara na sala dos professores com apenas um propósito, o de tentar entender porque ainda precisava de uns cinco pontos pra atingir a média, quando encontrou em choque o tal professor estressado por um casamento mal-acabado. Parte de sua alma benevolente sentou-se ao lado dele para lhe dar um abraço de consolo, e de fato o deu. Mas o sorriso, dessa vez, partiu inicialmente dos olhos dele, até encontrar os brancos dentes dela. Já no fim da noite, não havia mais ninguém na sala, e bem poucos em toda a escola, pra reparar em respirações entrecortadas na ala oeste.

Na faculdade gostava de chamar a atenção durante o dia pra passar sorrateiramente angustiada pela noite. Um sorriso simpático não era exclusividade, por isso, em tempos de uma fluidez de sentimentos muito grande aglomerar admiradores não era difícil, em especial com aquele ar angelical e decente. Para os colegas ela não cedia mais que um meio sorriso, que lhes entregava aos poucos, como em doses de heroína dadas para alimentar um vício. Era assim que aprendera a manipular seu feitiço magnético. Era tão bonita quanto qualquer outra que se visse a distância, mas podia-se notar o magnetismo saindo de sua pele e arrastando corações. Magnética Magnólia, assim a chamavam.

Aprendera a ceder com o sorriso e se esquecera de tirá-lo do rosto. Nem a pessoa mais realizada do mundo conseguia sorrir como ela. Assim, agradava a todos. Agradava até a si mesma, em termos. Sentia-se como uma obrigação a necessidade ser feliz. E porque não seria? E porque não chorava? Ou melhor, porque nunca ninguém realmente quis acreditar em seu choro? O sorriso a amaldiçoava, como se a felicidade fosse um fardo em suas costas. Estaria ali, para sempre, a garota que supera, que sabe ir em frente.

Pensava nisso agora, entre os desconhecidos que a cercavam no avião. De repente, sorrir era tão automático e tão sinônimo de realização. O que pensariam os outros a seu redor a seu respeito? Uma mulher jovem, viajando nas férias, deve ter uma casa na montanha e um casal de cachorros à sua espera com o namorado. Não estava inteiramente sozinha, mas…ah é claro que estava internamente isolada.

Sentia o corpo como se um caminhão tivesse passada por cima, todos os ossos, os órgãos, a pele, tudo rangia. Na sua cabeça, pensamentos infames lhe atazanavam de cinco em cinco segundos. Fisicamente, parecia que tudo estava bem, mas no fundo ela estava desesperada de dor, se indagando se era assim que era morrer. Não havia pra onde ir e o grito que estava por vir ela segurou com toda a força e amarrou com um nó de marinheiro. Dez segundos e nada mais. Eles não entenderiam, não havia aprendido a sofrer em público. A voz na sua cabeça dizia, “apenas sorria”. E assim ela o fez. Mas o fez como se todos os seus dentes estivessem esmigalhados e um saco de areia houvesse sido despejado em sua boca. Sorriso de areia. Ainda era um sorriso de fada. Mas assim estava melhor. Pelo menos agora as pessoas podem dormir.

24/01/2009 at 11:24 pm | In Uncategorized | Leave a Comment

eu queria mais cor.

e queria um soneto.

eu nem sei mais o que queria.

salgado

24/01/2009 at 10:38 pm | In Uncategorized | Leave a Comment

A frieza da rua me mostrou uma sombra
Ainda uma sobra de vida

O dia me forçou a sair naquela tarde
Insuportavelmente tarde
E inabalavelmente pálida

O corpo cansado sumiu na fumaça
A pupila impotente se resguardou
E calou

Do corpo na cama fria
Se fez acender na ardência do chão
De natureza

Se desfaz em suor
A fala salgada
Da incoerência

Sangue inoperante
E respiração inconstante
Fatos, porém fábulas

Um corpo inexistente
Uma sobra, uma sombra

cru

24/01/2009 at 10:11 pm | In Uncategorized | Leave a Comment

do branco que amanheceu o dia
na vista o embaço ardil fez-se pranto
ao nuance do tom se igualou a cortina
nas matizes de neve desfazia o encanto

e eu nem imagino – o que sei – se eu não ligo
não conheço outro passo, outro mal
tal os olhos refletindo vossa falsa moral
que no quarto, as cortinas, já deram abrigo

não há cura restante à leviandade da sorte
que por tua malícia – ou maldade – me nega clemência
enquanto eu sou ilha de veneno cortante

no envelope lacrado o resquício da fala
caiu como chumbo do céu, a eloquência
da fuga perfeita no dia da caça

c’est la vie

17/11/2008 at 5:09 pm | In Uncategorized | 3 Comments

Corre

que a chuva ameaça

e o vento assopra o teu cigarro

que antecede o deleite

e satisfaz um trago

 

Ama

e fala sorrindo que gosta

que goza

que sonha

e espera

 

viaja à brasileira

tão fácil ir a paris

abrasileirar em inglês

 

what you get?

what you want

Não seca essa chuva no seu corpo

Não tira esse gosto da boca

Não fala que não – Je t’aime

Segura esse grito um pouco mais

 

E quando chegar

A manhã já se foi

O todo ela vê

E tudo ela sente

Again, and again

And again

 

e ela quer

do doce suspiro

ao grave delito

se descobre com fome

 

Globalizar é preciso

Gimme

Gimme more

partido

10/11/2008 at 1:05 pm | In Uncategorized | 2 Comments

Te amei

Primeiro por ser tão igual

a mim

eu que não falo

não entrego, me calo

e esqueço a porta no fim

depois te amei mais

mais pela causa e pela coisa

da diferença e da força

de você e de mim

a diferença do igual

de dentro, não sei bem onde

te reneguei como espelho quebrado

e nem te notei bem ao meu lado

forte, de forma irritante

da tua força e tua paz

do meu medo

da tua palavra fugaz

aprendo a consolar-me

consolidar-me

sem proclamar-te

rainha dos seus

balzaq

25/10/2008 at 11:32 pm | In Uncategorized | 2 Comments

visto

revisto

analiticamente

detalhisticamente

bah! ele não diz

aquilo de mentir

só disfarça

faz charme

agrada, mas não convence

exalta, glorifica

fantasia

se delicia

ai, amor bandido!

mentiroso e corrompido

balzaq político – católico?

paradoxalmente

eu assistia ao high school

nico

04/10/2008 at 11:47 pm | In poesia | Leave a Comment

Meu cigarro apagou

bem na hora  em que eu te escrevia

um poeminha assim

singelo

simplista

cinético

que faço sem meu cigarro

sem a ti escrever

e os céus a presenciar o ser

o estar da poesia

que não foi escrita

por uma corrente que passa

e me abraça na incandescente luz dos que sofrem

o amor não manifesta temores

age forte, inconsequente

fugaz, amargo, descrente

que mesmo meu cigarro aceso

de certo que iria apagar

mas chega de saudade

chega de bondade, humildade

quero mais a luxúria

o prazer e a benesse

imbutidos no meu cigarro

que voou janela afora

para eu ver

eu crer e aprender

e me deter

diante da janela aberta

que de repente traz e leva

cem anos do meu coração

mas hoje não

me diga não

que meu cigarro espera um trago

Próxima Página »

Blog no WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.