acordei descrente

e como de costume 

lavei o cabelo pra tirar o sebo  amarelado do desconsolo

e o vício do corpo inerte

cortei à lâmina 

os próprios fios mesclados na minha garganta

cortei meu sono

empreendi mil maneiras de amanhecer um sol

um pleito de muitos

derrota de todos

e faz algum tempo que não me vejo aqui

como dois

e dois sãos

quatro vocês

por cima

eu

por baixo

nós

o mar

não é verde estampado

não é cinza pisado

é caminho de ilusão

 

seu fim

se alcança de noite

por debaixo da areia

o calor se faz forte

estremece a visão

 

o mar não é água

ou física aplicada

é um bicho cansado

descrente e esparramado

 

na terra que abraça

fiel na corrente

azulado no amor

então eu fecho os olhos

se você quiser

com a mãos para trás, seios a frente

constrangidos pelo ventilador

então não corto os cabelos

deixo eles em paz

pra esconder de leve seus olhos, seus ombros

enroscar teus cachos

não lavo as mãos

que é pra não perder o calor

da tua pele e teu preconceito

então te deixo sentir o meu cheiro de morango

e respiro tranquila e infantil

pra adormecer do seu jeito

A caneta escorregou da minha mão. Porque tremi de medo e de fome, confesso. Três dias inteiros em um semi-jejum tinham me tirado do meu centro. Você me olhou distraída enquanto eu, também distraído, deixava escapar de mim um enorme pedaço guardado a sete chaves no meu âmago. E a caneta escorregou, quando você disse que gostava. E eu parti a caneta em três quando você disse que não era mulher pra ser escrita nem descrita em termos infantis de meninos sonhadores.

Eu, menino sonhador, achava que lendo Goethe iria me redimir de mim mesmo, meus poucos cabelos castanhos me dizendo que eu saberia escrever uma carta de amor. Mas a mulher que não deveria ser descrita me pediu um poema que eu não conseguiria escrever sem ter que arrancar de dentro de mim esse barulho estranho que tem uma textura cremosa de nuvem.

Três dias de insônia parcial, porque tudo em mim, um menino sonhador, é incompleto até você balançar seus cabelos coloridos nos meus olhos. E tudo numa caneta vai se tornando real, se fazendo assombroso. Sem mais, você puxou o travesseiro e riu do que leu pelo canto do olho esquerdo: eu te odeio.

Ela não podia

Não podia entrar de vez

Nem sabia sair

Talvez

Não soube também pedir

E enquanto esteve na porta

Se sentou

Esperava a chuva secar

Não vi

o choro

o real, circunscrito

não vi o gosto

da página errada

manchada de bênção

não quis a linhagem

combinação esquálida

de língua e bobagem

provei as tramas

senti a glória

De certa forma você se espanta ao olhar para o lado sem muita perspectiva e encontrar nada muito além de um grande vácuo onde nem mesmo a neblina te faz companhia.

Você pisca e tenta reconstruir aquilo que parecia tão real, tão crível e imperfeito que poderia ter existido: as risadas,os gritos, a música. E você teimou que existiu mesmo sem nenhum rastro, nem uma agulha fora do lugar em um quarto milimetricamente arrumado.

Nunca existiu; a explicação mais plausível. Porque nada definitivamente vai embora quando é verdadeiro. Porque a verdade impregna por debaixo da pele e se faz algo indisfarçável, como cheiro, como suor. E o que se vai, e que parece escorrer por nossas mãos, na verdade nunca esteve de fato. Como você,  nunca esteve de fato.

E deixa fagulhas para o desconsolo da memória. Fica só a confusão, o deja vù maldito de um  universo insólito, mas que te fez rir e te fez chorar para depois rir do que chorou e então chorar de rir.

Mas é chegada a hora de abrir os olhos e entender que o estranho vazio a seu redor não é mais que a verdade por trás da matrix que você pensou ser o seu lugar. Acende o ardor nas pupilas para encarar a impermeável condição da solidão humana.

Estamos todos. Estamos plenos.

O Leite derramado sobre a natureza morta me choca, me choca

Leite (Otto e Céu)

As meninas disseram que seria uma noite de muita purpurina, muita estrela no céu e muita lua pra iluminar nossas cabeças-de-vento. Acreditei nos sonhos da Charlotte com com as penas cor-de-rosa esvoaçantes que girava enquanto o Amarante cantava o que era a dor de perder alguém. Girei girei girei até encontrar alguém que não sabe, nunca soube e sei lá se um dia saberá.

Eu bem que tentei, mas faltou o glamour do fim da noite, as luzes semi-acesas nos rostos emaranhados de cigarros e satisfação do corpo. Muitos corpos, muitos horizontes e nada de meninas àquela altura do campeonato.

É quando vem um diabinho soprar no seu ouvido algo como o “give it away now” de que tanto sua mãe falou quando era mais moça. E os montes de corpos que juntos parecem dançar a dança dos lobos parecem agora mais um monte de sacos vazios de fúria impotente, sem culpa, sem carne. As meninas já foram e você ficou ali olhando os sacos se movimentarem lentamente tentando identificar algum avesso da resignação gratuita do corpo. Algum contraponto, uma luz incandescente que viria cortar ao meio todo o salão em sua mais profunda insignificância dançante para enfim chegar até aquele que é ao mesmo tempo o centro de seu equilíbrio, seu ponto cego e o cemitério dos sentimentos devastados, pulsando ofensivo para a luminescência.

Sanguinolento seria um final feliz. Mas a luz não veio cortar ao meio. Passou distribuindo algumas fagulhas de eletricidade, como as meninas disseram que aconteceria, mas não parou, como elas previram.

Deixou um coração elétrico.

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