Nunca disse que sabia das respostas. Mesmo assim, ele as cobrou. Com imposto de renda descontado previamente levando na nota fiscal uma observaão sobre os possíveis encargos que deveriam ser debitados em sua conta: humilhação, frustração e baixa-estima estariam listadas, com certeza.  Mas a conta deveria ser paga conjuntamente. As minhas escolhas e os seus desvios. Os meus pares de dúvidas e as suas embalagens de silêncio. Entretanto, os bens compartilhados – agora estilhaçados no hall – foram devidamente endereçados para destinos díspares, separados dos amendoins que comeríamos no próximo vôo. 

O meu e o seu coração eram cada um em um canto da caixa, enviada para o setor dos ‘objetos frágeis’. Frágil uma ova! Havia sido pisado, massacrado e mutilado quantas vezes até ser atirado janela a fora pela prepotência das elucidações humanas? O fato é que esta parte, de que se diz fundamental do ser humano, batia perversamente dentro de uma caixa instável e duvidosa que era o meu corpo.

E que fazer então, com os destinos devidamente programados dentro de um painel mecânico que nada dizia a meu favor a não ser que você teria sua isenção em pouco menos de umas horas?? O que dizer se alguém lhe diz que o melhor é investir em seus próprios negócios ou  num mercado externo, mais promissor que as antigas fontes de renda? Não faria a mínima diferença, de qualquer forma, e a minha rotina era assistir sempre a fuga do capital e a desvalorização local. O que lhe faria ficar, não seriam alguns poucos números no seu celular, ou no seu pager – mas pager não é algo que se use hoje em dia! – apenas quando se é um homem de negócios. Me confortei e tentei olhar o mercado local, mas os investimentos pareciam tão indiferentes para uma transação tão profunda.

 Acho que não é hora de mudar de política. Nem era hora de iniciar uma nova aplicação. Seria muito mais fácil concentrar as energias em um negócio seguro, confiável e aberto para reformas. O meu coração estava sempre aberto, mas você nunca entendeu, nunca conseguiu, nunca procurou. Você, nunca.  Recusou até as commodities que estavam atreladas. Não basta dar a volta, é preciso entender a curvatura. E eu precisava entender de economia pra te entregar qualquer coisa inteligente ou eloquente. Nenhum dos dois, mas que fosse convincente.

A essa hora caberia a mim digitar os números na telinha digital? É o que de vez em quando, agora, eu me pergunto quando olho pra você, desse jeito de quem não sabe pra onde foi. Porque eu olho todos os dias, e não dá pra não fazer isso, e nem dá pra te escutar. Quer dizer, dá pra escutar, mas só dentro da minha cabeça. Aí eu tampo os ouvidos com as duas mãos pra ficar só eu e você nesse momento de privacidade auricular. E eu bem que podia fazer você partir logo. Mas não dá. Na verdade, você pega aquele avião todos os dias, e todos os dias eu me vejo segurando aquela caixa de frágil nas mãos, cujo interior tem um músculo pulsante mutilado, massacrado e pisado num canto sozinho, mas pulsante. E lá, todos os dias tentando decidir se despacho ou levo na mão.

Mentira, a dúvida é se despacho pra Tóquio ou pra Nova York. Nova York que é sempre pra mim, e Tóquio que é sempre pra você. Mas são tão iguais. E tão diferentes. E na verdade eu nem estive em nenhuma delas. Mas quando fui a Tóquio, todas as ruas eram azuis e todas as esquinas eram vermelhas. E todas as luzes brilhavam e todas as cores te desenhavam. E eu bem queria me desmanchar em trinta mil pedacinhos, pra caber nos trinta mil pensamentos que eu via brotar da sua cabeça.

Mas no fim, nunca soube dizer mesmo o que é isso. Ou sei: investimento de risco.

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