maio 2010


As meninas disseram que seria uma noite de muita purpurina, muita estrela no céu e muita lua pra iluminar nossas cabeças-de-vento. Acreditei nos sonhos da Charlotte com com as penas cor-de-rosa esvoaçantes que girava enquanto o Amarante cantava o que era a dor de perder alguém. Girei girei girei até encontrar alguém que não sabe, nunca soube e sei lá se um dia saberá.

Eu bem que tentei, mas faltou o glamour do fim da noite, as luzes semi-acesas nos rostos emaranhados de cigarros e satisfação do corpo. Muitos corpos, muitos horizontes e nada de meninas àquela altura do campeonato.

É quando vem um diabinho soprar no seu ouvido algo como o “give it away now” de que tanto sua mãe falou quando era mais moça. E os montes de corpos que juntos parecem dançar a dança dos lobos parecem agora mais um monte de sacos vazios de fúria impotente, sem culpa, sem carne. As meninas já foram e você ficou ali olhando os sacos se movimentarem lentamente tentando identificar algum avesso da resignação gratuita do corpo. Algum contraponto, uma luz incandescente que viria cortar ao meio todo o salão em sua mais profunda insignificância dançante para enfim chegar até aquele que é ao mesmo tempo o centro de seu equilíbrio, seu ponto cego e o cemitério dos sentimentos devastados, pulsando ofensivo para a luminescência.

Sanguinolento seria um final feliz. Mas a luz não veio cortar ao meio. Passou distribuindo algumas fagulhas de eletricidade, como as meninas disseram que aconteceria, mas não parou, como elas previram.

Deixou um coração elétrico.

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Pra zombar dos olhos teus fiz um verso esverdeado

Que escrevi por todo o quarto nas paredes e nos navios.

E chorei minhas pitangas bem em cima do verdinho

Desbotou todo o carpete, penetrou todos os fios

Canetinha vazou no peito

Manchou bonito meu coração