poesia


acordei descrente

e como de costume 

lavei o cabelo pra tirar o sebo  amarelado do desconsolo

e o vício do corpo inerte

cortei à lâmina 

os próprios fios mesclados na minha garganta

cortei meu sono

empreendi mil maneiras de amanhecer um sol

um pleito de muitos

derrota de todos

e faz algum tempo que não me vejo aqui

como dois

e dois sãos

quatro vocês

por cima

eu

por baixo

nós

o mar

não é verde estampado

não é cinza pisado

é caminho de ilusão

 

seu fim

se alcança de noite

por debaixo da areia

o calor se faz forte

estremece a visão

 

o mar não é água

ou física aplicada

é um bicho cansado

descrente e esparramado

 

na terra que abraça

fiel na corrente

azulado no amor

então eu fecho os olhos

se você quiser

com a mãos para trás, seios a frente

constrangidos pelo ventilador

então não corto os cabelos

deixo eles em paz

pra esconder de leve seus olhos, seus ombros

enroscar teus cachos

não lavo as mãos

que é pra não perder o calor

da tua pele e teu preconceito

então te deixo sentir o meu cheiro de morango

e respiro tranquila e infantil

pra adormecer do seu jeito

Ela não podia

Não podia entrar de vez

Nem sabia sair

Talvez

Não soube também pedir

E enquanto esteve na porta

Se sentou

Esperava a chuva secar

Não vi

o choro

o real, circunscrito

não vi o gosto

da página errada

manchada de bênção

não quis a linhagem

combinação esquálida

de língua e bobagem

provei as tramas

senti a glória

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