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acordei descrente

e como de costume 

lavei o cabelo pra tirar o sebo  amarelado do desconsolo

e o vício do corpo inerte

cortei à lâmina 

os próprios fios mesclados na minha garganta

cortei meu sono

empreendi mil maneiras de amanhecer um sol

um pleito de muitos

derrota de todos

e faz algum tempo que não me vejo aqui

A caneta escorregou da minha mão. Porque tremi de medo e de fome, confesso. Três dias inteiros em um semi-jejum tinham me tirado do meu centro. Você me olhou distraída enquanto eu, também distraído, deixava escapar de mim um enorme pedaço guardado a sete chaves no meu âmago. E a caneta escorregou, quando você disse que gostava. E eu parti a caneta em três quando você disse que não era mulher pra ser escrita nem descrita em termos infantis de meninos sonhadores.

Eu, menino sonhador, achava que lendo Goethe iria me redimir de mim mesmo, meus poucos cabelos castanhos me dizendo que eu saberia escrever uma carta de amor. Mas a mulher que não deveria ser descrita me pediu um poema que eu não conseguiria escrever sem ter que arrancar de dentro de mim esse barulho estranho que tem uma textura cremosa de nuvem.

Três dias de insônia parcial, porque tudo em mim, um menino sonhador, é incompleto até você balançar seus cabelos coloridos nos meus olhos. E tudo numa caneta vai se tornando real, se fazendo assombroso. Sem mais, você puxou o travesseiro e riu do que leu pelo canto do olho esquerdo: eu te odeio.

As meninas disseram que seria uma noite de muita purpurina, muita estrela no céu e muita lua pra iluminar nossas cabeças-de-vento. Acreditei nos sonhos da Charlotte com com as penas cor-de-rosa esvoaçantes que girava enquanto o Amarante cantava o que era a dor de perder alguém. Girei girei girei até encontrar alguém que não sabe, nunca soube e sei lá se um dia saberá.

Eu bem que tentei, mas faltou o glamour do fim da noite, as luzes semi-acesas nos rostos emaranhados de cigarros e satisfação do corpo. Muitos corpos, muitos horizontes e nada de meninas àquela altura do campeonato.

É quando vem um diabinho soprar no seu ouvido algo como o “give it away now” de que tanto sua mãe falou quando era mais moça. E os montes de corpos que juntos parecem dançar a dança dos lobos parecem agora mais um monte de sacos vazios de fúria impotente, sem culpa, sem carne. As meninas já foram e você ficou ali olhando os sacos se movimentarem lentamente tentando identificar algum avesso da resignação gratuita do corpo. Algum contraponto, uma luz incandescente que viria cortar ao meio todo o salão em sua mais profunda insignificância dançante para enfim chegar até aquele que é ao mesmo tempo o centro de seu equilíbrio, seu ponto cego e o cemitério dos sentimentos devastados, pulsando ofensivo para a luminescência.

Sanguinolento seria um final feliz. Mas a luz não veio cortar ao meio. Passou distribuindo algumas fagulhas de eletricidade, como as meninas disseram que aconteceria, mas não parou, como elas previram.

Deixou um coração elétrico.

Pra zombar dos olhos teus fiz um verso esverdeado

Que escrevi por todo o quarto nas paredes e nos navios.

E chorei minhas pitangas bem em cima do verdinho

Desbotou todo o carpete, penetrou todos os fios

Canetinha vazou no peito

Manchou bonito meu coração

E eu só queria não ter esse coração farsante e mente tão altruísta.

Eu só queria odiar menos as minhas palavras.

Eu só queria não querer entender.

Mas eu quero.

E me desmancho. Corrosivamente.

Quando concordo, me mato no espelho com o oriente na boca.

Eu não soube dizer, mas Maria disse tudo:

“vem, que eu te quero fraco;

vem que eu te quero tolo;

vem que eu te quero todo…meu”

Então Chico veio no fim do domingo.

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