De certa forma você se espanta ao olhar para o lado sem muita perspectiva e encontrar nada muito além de um grande vácuo onde nem mesmo a neblina te faz companhia.

Você pisca e tenta reconstruir aquilo que parecia tão real, tão crível e imperfeito que poderia ter existido: as risadas,os gritos, a música. E você teimou que existiu mesmo sem nenhum rastro, nem uma agulha fora do lugar em um quarto milimetricamente arrumado.

Nunca existiu; a explicação mais plausível. Porque nada definitivamente vai embora quando é verdadeiro. Porque a verdade impregna por debaixo da pele e se faz algo indisfarçável, como cheiro, como suor. E o que se vai, e que parece escorrer por nossas mãos, na verdade nunca esteve de fato. Como você,  nunca esteve de fato.

E deixa fagulhas para o desconsolo da memória. Fica só a confusão, o deja vù maldito de um  universo insólito, mas que te fez rir e te fez chorar para depois rir do que chorou e então chorar de rir.

Mas é chegada a hora de abrir os olhos e entender que o estranho vazio a seu redor não é mais que a verdade por trás da matrix que você pensou ser o seu lugar. Acende o ardor nas pupilas para encarar a impermeável condição da solidão humana.

Estamos todos. Estamos plenos.

O Leite derramado sobre a natureza morta me choca, me choca

Leite (Otto e Céu)

As meninas disseram que seria uma noite de muita purpurina, muita estrela no céu e muita lua pra iluminar nossas cabeças-de-vento. Acreditei nos sonhos da Charlotte com com as penas cor-de-rosa esvoaçantes que girava enquanto o Amarante cantava o que era a dor de perder alguém. Girei girei girei até encontrar alguém que não sabe, nunca soube e sei lá se um dia saberá.

Eu bem que tentei, mas faltou o glamour do fim da noite, as luzes semi-acesas nos rostos emaranhados de cigarros e satisfação do corpo. Muitos corpos, muitos horizontes e nada de meninas àquela altura do campeonato.

É quando vem um diabinho soprar no seu ouvido algo como o “give it away now” de que tanto sua mãe falou quando era mais moça. E os montes de corpos que juntos parecem dançar a dança dos lobos parecem agora mais um monte de sacos vazios de fúria impotente, sem culpa, sem carne. As meninas já foram e você ficou ali olhando os sacos se movimentarem lentamente tentando identificar algum avesso da resignação gratuita do corpo. Algum contraponto, uma luz incandescente que viria cortar ao meio todo o salão em sua mais profunda insignificância dançante para enfim chegar até aquele que é ao mesmo tempo o centro de seu equilíbrio, seu ponto cego e o cemitério dos sentimentos devastados, pulsando ofensivo para a luminescência.

Sanguinolento seria um final feliz. Mas a luz não veio cortar ao meio. Passou distribuindo algumas fagulhas de eletricidade, como as meninas disseram que aconteceria, mas não parou, como elas previram.

Deixou um coração elétrico.

Pra zombar dos olhos teus fiz um verso esverdeado

Que escrevi por todo o quarto nas paredes e nos navios.

E chorei minhas pitangas bem em cima do verdinho

Desbotou todo o carpete, penetrou todos os fios

Canetinha vazou no peito

Manchou bonito meu coração

E eu só queria não ter esse coração farsante e mente tão altruísta.

Eu só queria odiar menos as minhas palavras.

Eu só queria não querer entender.

Mas eu quero.

E me desmancho. Corrosivamente.

Quando concordo, me mato no espelho com o oriente na boca.

Eu não soube dizer, mas Maria disse tudo:

“vem, que eu te quero fraco;

vem que eu te quero tolo;

vem que eu te quero todo…meu”

Então Chico veio no fim do domingo.

pouco a pouco

minhas poesias estão virando caquinhos…

pedaços esquartejados de almas carentes.

num dia como esse, em que as nuvens se escondem de medo do sol

não consigo respirar

não consigo responder

não consigo me redimir dos pecados interiores da alma esquartejada

não se sente saudades do que nunca existiu

existe um caminho entre o sonho e a vida real no qual enfio minha cabeça nesses dias de sol tão nublados.

são mais de 40 graus no termômetro o que me faz pensar: a que horas eu vou mesmo me desintegrar?

enquanto isso você me olha de lado,

me faz um agrado velado,

me espera chegar no horário para me despedaçar de vez

E por isso, de novo, eu não te amo