Eu tava lá no lugar mais bizarro pra se conhecer gente interessante. Não sei também. Outros diriam que era um bom lugar. Mas o fato é que eu não me sentia confortável pra esse tipo de experiência naquele ambiente.

Ora, eu estava lá, esperando no ponto de ônibus. Viajando, como sempre, com os olhos perdidos na paisagem e repassando mentalmente os defeitos de cada pessoa que passava na minha frente. Não me venham dizer que nunca fizeram isso! Quando se está a milhares de quilometros de sua casa, num país estrangeiro, esperando um ônibus passar, não se tem muita coisa que fazer a não ser reparar nas outras pessoas. E pra mim, reparar significa classificar, categorizar. Trocando em miúdos, rotular cada ser indefeso que me pegou naquele dia infeliz.

Infeliz sim, fazia uns 34º F, e eu tava la de havaianas na frente do hospital. Meus pés congelavam. Hora de amaldiçoar pessoas alheias. Maldita enfermeira, maldito médico residente, maldita velhinha que passou na minha frente, maldito farmacêutico que me vendeu o remédio errado, maldito 17 que não chega e maldita pessoa que passar na minha frente!

Nessas horas estar em um país de língua estranha é uma bênçâo!! Você consegue xingar as pessoas em voz alta, sem precisar se reprimir! Ninguém vai entender mesmo! Passei a andar pela rua e olhar pras pessoas dizendo coisas como ‘vaca’, ‘piranha’, ‘fdp’, ‘escroto’. e outras variadades que só o vocabulário brasileiro  nos permite. Ajuda a ‘extravasar’, como diria Claudia Leite.    

Coisas que eu mais odeio: berinjela, perder dinheiro, ficar sem dormir, e dizerem que se fala espanhol no Brasil. A berinjela, até que dá pra comer de vez em quando. Mas os demais, me tiram do sério.

Naquele dia em particular, não havia nada que pudesse me irritar mais ainda. Não, sinceramente, eu não estava num dia bom. Parou do meu lado uma figura de 1,80, negro estilo philadelphiano, barbudo e com aquela tôuca típica de quem não tem nenhum senso de moda e tá com frio na careca. Devia ter uns 40 anos.

Olhou pra mim. Falei, numa tentativa de ser agradável, porém frustrada pela minha cara de bunda, ‘boa tarde’. Me respondeu com  um ‘what’s up’, que nunca consegui entender se era uma pergunta ou só uma daquelas expressões que não tem resposta. Olhou pra mim de novo, mas dessa vez fixou o olhar nas minhas havaianas. 

Era o que me faltava, pensei. Vai ficar me zuando por causa da havaiana. Não deu outra. Ele me perguntou tirando um sarro, se eu não tinha pena dos meus pés naquele frio . Apesar do que muitos dizem, eu sou uma pessoa muito pacífica, muito controlada. Sempre tento agir ocm diplomacia e educação, mesmo xingando a pessoa de jumento, mentalmente. Eu respondi que meu pé estava machucado, e que não podia calçar sapato fechado.

Eu e minha boca grande. Na hora, ele mudou de expressão. Parecia estar considerando a coisa toda. Veio a seguir o que eu nunca imaginaria. ‘Você é casada?’ A educação falou mais alto: ‘não’. Ao que ele continuou: ‘Não está interessada em arrumar seu primeiro marido americano??’

Encosta o 17.

Os americanos são realmente intragáveis. 

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