Foi pra dentro da sala e esperou atentamente pelos passos afoitos das meninas. Não sabia mais por onde respirar para se desvencilhar de toda aquela ânsia. A espera. Ouviu o aviso debochado: “ele está vindo”. Passara todo um ano dentro daquela sala. E todo um ano correndo dela. Mas ele só viria naquele dia. O coraçãozinho apertado, ainda se perguntava se era daquele jeito mesmo. Era sua primeira vez. Não sabia ao certo se estava preparada pra toda aquela emoção. Na verdade só sentia a angústia carregada no ouvir de cada passo lá fora. 

Porque deveria fazer aquilo? “E porque não?” disse sua consciência. Uma hora ia acontecer. Melhor acabar com a expectativa de vez. A tortura é a demora. “Parecem séculos, meu Deus!!” Mas devia valer a pena. Raras as garotas da sua idade que tinham esperado em salas como aquela, mas o que se ouvia dos mais experientes é que seria ótimo, porém perigoso. Ser a precursora era emocionante. Ela passaria pelas demais com aquele ar arrebatador de mulher experiente, que conhece as coisas. As outras iriam desejar ser ela e lhe pedir conselhos. Seria respeitável. Altiva e tenaz. Quase uma heroína na turma, a qual legiões de garotas seguiriam. Um ícone.

Mas essa espera era excitantemente irritante. Ja revirava os olhos de exaustão, quando a porta abriu e ele entrou. Entrou, chegou perto e riu. Sabia da inexperiência. E ela soube que ele percebera. “Quantos anos você tem?” Não respondeu. Escolheu a superioridade do silêncio. “Você é bonita”, disse olhando-a analiticamente. Não pensou. Sem dar tempo a respiração, esfregou sua boca na dele. Ou quase. Ele a beijou também, com a expressão de quem fora arrebatado por um furacão. Não havia classe. Era contato. Durou cerca de meio minuto. Então saiu montada naquela arrogância que apenas os 10 anos de idade permitem, e sair porta afora antes de ouvir tocar o fim do recreio. Lá fora, a legião de garotas se aprontava para sentir sua áurea de diva. Havia ganhado o mundo.