A caneta escorregou da minha mão. Porque tremi de medo e de fome, confesso. Três dias inteiros em um semi-jejum tinham me tirado do meu centro. Você me olhou distraída enquanto eu, também distraído, deixava escapar de mim um enorme pedaço guardado a sete chaves no meu âmago. E a caneta escorregou, quando você disse que gostava. E eu parti a caneta em três quando você disse que não era mulher pra ser escrita nem descrita em termos infantis de meninos sonhadores.

Eu, menino sonhador, achava que lendo Goethe iria me redimir de mim mesmo, meus poucos cabelos castanhos me dizendo que eu saberia escrever uma carta de amor. Mas a mulher que não deveria ser descrita me pediu um poema que eu não conseguiria escrever sem ter que arrancar de dentro de mim esse barulho estranho que tem uma textura cremosa de nuvem.

Três dias de insônia parcial, porque tudo em mim, um menino sonhador, é incompleto até você balançar seus cabelos coloridos nos meus olhos. E tudo numa caneta vai se tornando real, se fazendo assombroso. Sem mais, você puxou o travesseiro e riu do que leu pelo canto do olho esquerdo: eu te odeio.