Ela olhou por dez segundos contados, não no relógio, mas nos dedos. Dez segundos e nada mais. Podia olhar pra frente agora. Podia fingir um sorriso daqueles que só ela conseguia forjar. E o pior – eles acreditariam! Acreditariam, porque sempre todo mundo acredita. À sua volta uma multidão de pessoas desconhecidas – corações incoerentes, não dariam mais de dez anos a valer pelo sorriso. Os sorrisos dos dez anos são incomparáveis. E ela, já com uns contáveis vinte e poucos, era um atriz e tanto. Merecia um Oscar, um Globo de Ouro, ou o que for. Nem se importava se lhe dessem um Pulitzer. Sempre funcionava e sempre funcionaria. O sorriso.

Ainda quando criança, gostavam de ressaltar esse traço, tão sutil, tão simpático. Gordinha, baixinha e desengonçada, mas… ah! Que sorriso! Roubaria corações durante muito tempo, se aprendera a manipular seus dotes. Na adolescência, a malícia se escondia com perfeição atrás da doçura dos brancos dentes em linha curva. Rapazes e moças se deixavam levar, como que enfeitiçados por uma fada. Não há o que duvidar diante de fadas. São benevolentes, altruístas, e incrivelmente sagazes, além de possuírem os melhores sorrisos. Porque outra razão seria uma fada, a guardiã dos dentes, senão pela habilidade milenar de cativar por sorrisos? Já diziam os mais antigos, a janela da alma condiz aos olhos. Aos dentes, sobrou o cinismo – se traduz, sociabilidade.

Ela não era cínica. Não no sentido pesado da palavra, não tentava enganar as pessoas. Se há alguém mais afetado pelo seu sorriso de fada, fora ela própria. No mais, o passar de ano no segundo colegial se dera mais por conta da benevolência sexual do professor que por ela própria. Não havia culpa em suas recordações, e elas eram bem nítidas. Entrara na sala dos professores com apenas um propósito, o de tentar entender porque ainda precisava de uns cinco pontos pra atingir a média, quando encontrou em choque o tal professor estressado por um casamento mal-acabado. Parte de sua alma benevolente sentou-se ao lado dele para lhe dar um abraço de consolo, e de fato o deu. Mas o sorriso, dessa vez, partiu inicialmente dos olhos dele, até encontrar os brancos dentes dela. Já no fim da noite, não havia mais ninguém na sala, e bem poucos em toda a escola, pra reparar em respirações entrecortadas na ala oeste.

Na faculdade gostava de chamar a atenção durante o dia pra passar sorrateiramente angustiada pela noite. Um sorriso simpático não era exclusividade, por isso, em tempos de uma fluidez de sentimentos muito grande aglomerar admiradores não era difícil, em especial com aquele ar angelical e decente. Para os colegas ela não cedia mais que um meio sorriso, que lhes entregava aos poucos, como em doses de heroína dadas para alimentar um vício. Era assim que aprendera a manipular seu feitiço magnético. Era tão bonita quanto qualquer outra que se visse a distância, mas podia-se notar o magnetismo saindo de sua pele e arrastando corações. Magnética Magnólia, assim a chamavam.

Aprendera a ceder com o sorriso e se esquecera de tirá-lo do rosto. Nem a pessoa mais realizada do mundo conseguia sorrir como ela. Assim, agradava a todos. Agradava até a si mesma, em termos. Sentia-se como uma obrigação a necessidade ser feliz. E porque não seria? E porque não chorava? Ou melhor, porque nunca ninguém realmente quis acreditar em seu choro? O sorriso a amaldiçoava, como se a felicidade fosse um fardo em suas costas. Estaria ali, para sempre, a garota que supera, que sabe ir em frente.

Pensava nisso agora, entre os desconhecidos que a cercavam no avião. De repente, sorrir era tão automático e tão sinônimo de realização. O que pensariam os outros a seu redor a seu respeito? Uma mulher jovem, viajando nas férias, deve ter uma casa na montanha e um casal de cachorros à sua espera com o namorado. Não estava inteiramente sozinha, mas…ah é claro que estava internamente isolada.

Sentia o corpo como se um caminhão tivesse passada por cima, todos os ossos, os órgãos, a pele, tudo rangia. Na sua cabeça, pensamentos infames lhe atazanavam de cinco em cinco segundos. Fisicamente, parecia que tudo estava bem, mas no fundo ela estava desesperada de dor, se indagando se era assim que era morrer. Não havia pra onde ir e o grito que estava por vir ela segurou com toda a força e amarrou com um nó de marinheiro. Dez segundos e nada mais. Eles não entenderiam, não havia aprendido a sofrer em público. A voz na sua cabeça dizia, “apenas sorria”. E assim ela o fez. Mas o fez como se todos os seus dentes estivessem esmigalhados e um saco de areia houvesse sido despejado em sua boca. Sorriso de areia. Ainda era um sorriso de fada. Mas assim estava melhor. Pelo menos agora as pessoas podem dormir.