setembro 2008


mil anos vaguei por este mundão

já sei das placas

li os sinais

o que dizem no final

ja sei o que dizem

só não sei onde estou

só o branco eu vi

só o todo

todo o só

o todo só

e eu era tudo

toda

e só

foi quando o espelho quebrou

e me partiu

partida e de partida

procuro a minha maria

a que não fui – não sou – não dou

não hei de ser

desde que voltei a enxergar esses passos tortos na lama

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Se valia dos sonhos, os remotos e longínquos que são, nem sabia para quê, mas a esconder. Cabeceava suas teimosias a partir de histórias não vencidas pelo tempo. O tempo é que não era a seu favor. Este fazia questão de passar ligeiro pelos seus momentos de melodias. Depois se demorava nos dias de tons cinza, tal qual um barco solto numa lagoa demora a chegar ao outro lado. Se é que chega.  É do tipo que levanta a cabeça de vez em quando para fora do barco, no meio da bruma, para sentir, esperançosa, a presença de terra firme. O fim do martírio.

As coisas boas às vezes demoram a chegar. E o som, dolorosamente compreensível que ao longe canta os grandes dias de alegria, vai roendo-lhe as tripas de inveja/saudade/ansiedade. Inveja dos sons alheios, da felicidade alheia da margem da lagoa que não lhe pertence. Saudades dos próprios risos e festas que um dia ficaram na margem a suas costas e que, já é sabido, não voltarão: estão contra a correnteza e não há remos que lhe façam voltar. Ansiedade da sabida felicidade da outra margem que vem longe, arrastando-se penosamente, e que lhe é anunciada pela sábia voz sussurrante dentro de sua cabeça, mais eloqüentemente do que se gostaria. Não que a voz baixinha fosse o consolo para seus dias de martírio, que diz, “acalma –te pobre diabinho, que dias bons virão”. Antes fosse, pois a senhora que ali morava era mais pra uma bruxa que gargalhava “sofra bem um dia de cada vez que os bons tardarão”.

Enlouquece-se fácil dentro de um barco à deriva. Não sei bem de onde a criatura tirava forças pra lutar contra seus próprios demônios. Pra falar a verdade, não lutava, não ousava. Vivia cada dia como uma batalha contra o dragão, sua espada era suas lembranças tendenciosamente sempre positivas, arte da consciência que faz o favor de apagar das memórias dos tempos bons os maus momentos que vivemos. Fica assim a impressão de que o que se viveu foi sempre lindo e cor-de-rosa. Esquece-se as falhas, os tropeços, ou mesmo então, orgulha-se dos maus passos de antigos andantes. “Humanos tem lá seus dias de mal-estar”, pensara. Mas romanticamente, óbvio. Sempre pensaria que os dias belos e gloriosos abafariam quaisquer destoados segundos de tensão.

Tentou se lembrar porque entrara no barco e largara tudo o que venerava para trás. Mas era tudo tão confuso, tão esbranquiçado de sua mente como a neblina que pairava sobre toda a lagoa e impedia de enxergar o que se passava na margem a que se encaminha. Recordou-se vagamente de ter visto uma cena de despedida que ia se dissipando num clarão como quando se usa flashes de uma câmera ao bater uma foto. De um momento em que estavam todos, um flash, foi-se um; outro flash, outros dois; e depois de um tempo só restavam uma das pessoas que a rodeavam em todas aquelas festas do coração. Quis segurar-lhe a mão com medo de que também esta lhe sumisse em mais um flash, o que a bruxinha dentro de si já dizia jocosamente “seguras pra que? Quem tiver de ir, irá”, mas como o adjetivo lhe cabia, teimar era sua natureza, até contra si própria, pois quem era, senão ela mesma, a bruxa da consciência? Dito e desfeito. Veio outro flash, outro laço partido. Demorou chegar este último flash. Chegou quase a acreditar que não vinha, ou melhor, que não ia. Fosse por isso que se doeu ainda mais a última partida, ou talvez o fosse porque o partido coração fora consolado com palavras de quem sabia o que vinha a suceder, e não se entristecia, ao contrário, tinha certeza que se encontrariam num outro ponto, um outro nó dessa vida que reservava dias de risos e músicas e cores. E isso fez nela criar a expectativa, mas lembrar do que já naquele momento tinha acabado.

Ficou sozinha e se jogou no barco pra ver onde poderia encontrar todos os seus. Esperava achá-los do outro lado da margem agora. Mas as vozes que vinham de lá não pareciam a deles. Talvez sim. Talvez estejam todos lá com gargantas inflamadas ou gripes, que estas modificam a voz. Cansara de pensar. Não tinha o que fazer, não havia como remar. À deriva, que se há de fazer? A correnteza segue devagar, rebolando as águas calmamente, sinuosamente. Fica a dançar a água muito silenciosamente, com passos cadenciados de um ritmo preguiçoso. Tentaremos todos remar, enfiando os braços na água, mas a força da natureza é sábia e certeira. Não atropela, não ameaça, simplesmente, calma como só ela, nos segura com uma mão, enquanto boceja, com a outra na boca. E dali não saímos e com ela não podemos. Estamos todos condenados a esperar por seus caprichos. O tempo me desanima. Eu, que quero em tudo mandar e em tudo ter as mãos firmes, como um volante. Mas não era a dona do barco e o único sentido a se ir é o que a água maliciosamente nos joga a seu bel-prazer. Ao menos chega a algum lugar. Odeio o tempo e sua malícia.