crônica


A caneta escorregou da minha mão. Porque tremi de medo e de fome, confesso. Três dias inteiros em um semi-jejum tinham me tirado do meu centro. Você me olhou distraída enquanto eu, também distraído, deixava escapar de mim um enorme pedaço guardado a sete chaves no meu âmago. E a caneta escorregou, quando você disse que gostava. E eu parti a caneta em três quando você disse que não era mulher pra ser escrita nem descrita em termos infantis de meninos sonhadores.

Eu, menino sonhador, achava que lendo Goethe iria me redimir de mim mesmo, meus poucos cabelos castanhos me dizendo que eu saberia escrever uma carta de amor. Mas a mulher que não deveria ser descrita me pediu um poema que eu não conseguiria escrever sem ter que arrancar de dentro de mim esse barulho estranho que tem uma textura cremosa de nuvem.

Três dias de insônia parcial, porque tudo em mim, um menino sonhador, é incompleto até você balançar seus cabelos coloridos nos meus olhos. E tudo numa caneta vai se tornando real, se fazendo assombroso. Sem mais, você puxou o travesseiro e riu do que leu pelo canto do olho esquerdo: eu te odeio.

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De certa forma você se espanta ao olhar para o lado sem muita perspectiva e encontrar nada muito além de um grande vácuo onde nem mesmo a neblina te faz companhia.

Você pisca e tenta reconstruir aquilo que parecia tão real, tão crível e imperfeito que poderia ter existido: as risadas,os gritos, a música. E você teimou que existiu mesmo sem nenhum rastro, nem uma agulha fora do lugar em um quarto milimetricamente arrumado.

Nunca existiu; a explicação mais plausível. Porque nada definitivamente vai embora quando é verdadeiro. Porque a verdade impregna por debaixo da pele e se faz algo indisfarçável, como cheiro, como suor. E o que se vai, e que parece escorrer por nossas mãos, na verdade nunca esteve de fato. Como você,  nunca esteve de fato.

E deixa fagulhas para o desconsolo da memória. Fica só a confusão, o deja vù maldito de um  universo insólito, mas que te fez rir e te fez chorar para depois rir do que chorou e então chorar de rir.

Mas é chegada a hora de abrir os olhos e entender que o estranho vazio a seu redor não é mais que a verdade por trás da matrix que você pensou ser o seu lugar. Acende o ardor nas pupilas para encarar a impermeável condição da solidão humana.

Estamos todos. Estamos plenos.

O Leite derramado sobre a natureza morta me choca, me choca

Leite (Otto e Céu)

As meninas disseram que seria uma noite de muita purpurina, muita estrela no céu e muita lua pra iluminar nossas cabeças-de-vento. Acreditei nos sonhos da Charlotte com com as penas cor-de-rosa esvoaçantes que girava enquanto o Amarante cantava o que era a dor de perder alguém. Girei girei girei até encontrar alguém que não sabe, nunca soube e sei lá se um dia saberá.

Eu bem que tentei, mas faltou o glamour do fim da noite, as luzes semi-acesas nos rostos emaranhados de cigarros e satisfação do corpo. Muitos corpos, muitos horizontes e nada de meninas àquela altura do campeonato.

É quando vem um diabinho soprar no seu ouvido algo como o “give it away now” de que tanto sua mãe falou quando era mais moça. E os montes de corpos que juntos parecem dançar a dança dos lobos parecem agora mais um monte de sacos vazios de fúria impotente, sem culpa, sem carne. As meninas já foram e você ficou ali olhando os sacos se movimentarem lentamente tentando identificar algum avesso da resignação gratuita do corpo. Algum contraponto, uma luz incandescente que viria cortar ao meio todo o salão em sua mais profunda insignificância dançante para enfim chegar até aquele que é ao mesmo tempo o centro de seu equilíbrio, seu ponto cego e o cemitério dos sentimentos devastados, pulsando ofensivo para a luminescência.

Sanguinolento seria um final feliz. Mas a luz não veio cortar ao meio. Passou distribuindo algumas fagulhas de eletricidade, como as meninas disseram que aconteceria, mas não parou, como elas previram.

Deixou um coração elétrico.

E eu só queria não ter esse coração farsante e mente tão altruísta.

Eu só queria odiar menos as minhas palavras.

Eu só queria não querer entender.

Mas eu quero.

E me desmancho. Corrosivamente.

Quando concordo, me mato no espelho com o oriente na boca.

Ela olhou por dez segundos contados, não no relógio, mas nos dedos. Dez segundos e nada mais. Podia olhar pra frente agora. Podia fingir um sorriso daqueles que só ela conseguia forjar. E o pior – eles acreditariam! Acreditariam, porque sempre todo mundo acredita. À sua volta uma multidão de pessoas desconhecidas – corações incoerentes, não dariam mais de dez anos a valer pelo sorriso. Os sorrisos dos dez anos são incomparáveis. E ela, já com uns contáveis vinte e poucos, era um atriz e tanto. Merecia um Oscar, um Globo de Ouro, ou o que for. Nem se importava se lhe dessem um Pulitzer. Sempre funcionava e sempre funcionaria. O sorriso.

Ainda quando criança, gostavam de ressaltar esse traço, tão sutil, tão simpático. Gordinha, baixinha e desengonçada, mas… ah! Que sorriso! Roubaria corações durante muito tempo, se aprendera a manipular seus dotes. Na adolescência, a malícia se escondia com perfeição atrás da doçura dos brancos dentes em linha curva. Rapazes e moças se deixavam levar, como que enfeitiçados por uma fada. Não há o que duvidar diante de fadas. São benevolentes, altruístas, e incrivelmente sagazes, além de possuírem os melhores sorrisos. Porque outra razão seria uma fada, a guardiã dos dentes, senão pela habilidade milenar de cativar por sorrisos? Já diziam os mais antigos, a janela da alma condiz aos olhos. Aos dentes, sobrou o cinismo – se traduz, sociabilidade.

Ela não era cínica. Não no sentido pesado da palavra, não tentava enganar as pessoas. Se há alguém mais afetado pelo seu sorriso de fada, fora ela própria. No mais, o passar de ano no segundo colegial se dera mais por conta da benevolência sexual do professor que por ela própria. Não havia culpa em suas recordações, e elas eram bem nítidas. Entrara na sala dos professores com apenas um propósito, o de tentar entender porque ainda precisava de uns cinco pontos pra atingir a média, quando encontrou em choque o tal professor estressado por um casamento mal-acabado. Parte de sua alma benevolente sentou-se ao lado dele para lhe dar um abraço de consolo, e de fato o deu. Mas o sorriso, dessa vez, partiu inicialmente dos olhos dele, até encontrar os brancos dentes dela. Já no fim da noite, não havia mais ninguém na sala, e bem poucos em toda a escola, pra reparar em respirações entrecortadas na ala oeste.

Na faculdade gostava de chamar a atenção durante o dia pra passar sorrateiramente angustiada pela noite. Um sorriso simpático não era exclusividade, por isso, em tempos de uma fluidez de sentimentos muito grande aglomerar admiradores não era difícil, em especial com aquele ar angelical e decente. Para os colegas ela não cedia mais que um meio sorriso, que lhes entregava aos poucos, como em doses de heroína dadas para alimentar um vício. Era assim que aprendera a manipular seu feitiço magnético. Era tão bonita quanto qualquer outra que se visse a distância, mas podia-se notar o magnetismo saindo de sua pele e arrastando corações. Magnética Magnólia, assim a chamavam.

Aprendera a ceder com o sorriso e se esquecera de tirá-lo do rosto. Nem a pessoa mais realizada do mundo conseguia sorrir como ela. Assim, agradava a todos. Agradava até a si mesma, em termos. Sentia-se como uma obrigação a necessidade ser feliz. E porque não seria? E porque não chorava? Ou melhor, porque nunca ninguém realmente quis acreditar em seu choro? O sorriso a amaldiçoava, como se a felicidade fosse um fardo em suas costas. Estaria ali, para sempre, a garota que supera, que sabe ir em frente.

Pensava nisso agora, entre os desconhecidos que a cercavam no avião. De repente, sorrir era tão automático e tão sinônimo de realização. O que pensariam os outros a seu redor a seu respeito? Uma mulher jovem, viajando nas férias, deve ter uma casa na montanha e um casal de cachorros à sua espera com o namorado. Não estava inteiramente sozinha, mas…ah é claro que estava internamente isolada.

Sentia o corpo como se um caminhão tivesse passada por cima, todos os ossos, os órgãos, a pele, tudo rangia. Na sua cabeça, pensamentos infames lhe atazanavam de cinco em cinco segundos. Fisicamente, parecia que tudo estava bem, mas no fundo ela estava desesperada de dor, se indagando se era assim que era morrer. Não havia pra onde ir e o grito que estava por vir ela segurou com toda a força e amarrou com um nó de marinheiro. Dez segundos e nada mais. Eles não entenderiam, não havia aprendido a sofrer em público. A voz na sua cabeça dizia, “apenas sorria”. E assim ela o fez. Mas o fez como se todos os seus dentes estivessem esmigalhados e um saco de areia houvesse sido despejado em sua boca. Sorriso de areia. Ainda era um sorriso de fada. Mas assim estava melhor. Pelo menos agora as pessoas podem dormir.

Se valia dos sonhos, os remotos e longínquos que são, nem sabia para quê, mas a esconder. Cabeceava suas teimosias a partir de histórias não vencidas pelo tempo. O tempo é que não era a seu favor. Este fazia questão de passar ligeiro pelos seus momentos de melodias. Depois se demorava nos dias de tons cinza, tal qual um barco solto numa lagoa demora a chegar ao outro lado. Se é que chega.  É do tipo que levanta a cabeça de vez em quando para fora do barco, no meio da bruma, para sentir, esperançosa, a presença de terra firme. O fim do martírio.

As coisas boas às vezes demoram a chegar. E o som, dolorosamente compreensível que ao longe canta os grandes dias de alegria, vai roendo-lhe as tripas de inveja/saudade/ansiedade. Inveja dos sons alheios, da felicidade alheia da margem da lagoa que não lhe pertence. Saudades dos próprios risos e festas que um dia ficaram na margem a suas costas e que, já é sabido, não voltarão: estão contra a correnteza e não há remos que lhe façam voltar. Ansiedade da sabida felicidade da outra margem que vem longe, arrastando-se penosamente, e que lhe é anunciada pela sábia voz sussurrante dentro de sua cabeça, mais eloqüentemente do que se gostaria. Não que a voz baixinha fosse o consolo para seus dias de martírio, que diz, “acalma –te pobre diabinho, que dias bons virão”. Antes fosse, pois a senhora que ali morava era mais pra uma bruxa que gargalhava “sofra bem um dia de cada vez que os bons tardarão”.

Enlouquece-se fácil dentro de um barco à deriva. Não sei bem de onde a criatura tirava forças pra lutar contra seus próprios demônios. Pra falar a verdade, não lutava, não ousava. Vivia cada dia como uma batalha contra o dragão, sua espada era suas lembranças tendenciosamente sempre positivas, arte da consciência que faz o favor de apagar das memórias dos tempos bons os maus momentos que vivemos. Fica assim a impressão de que o que se viveu foi sempre lindo e cor-de-rosa. Esquece-se as falhas, os tropeços, ou mesmo então, orgulha-se dos maus passos de antigos andantes. “Humanos tem lá seus dias de mal-estar”, pensara. Mas romanticamente, óbvio. Sempre pensaria que os dias belos e gloriosos abafariam quaisquer destoados segundos de tensão.

Tentou se lembrar porque entrara no barco e largara tudo o que venerava para trás. Mas era tudo tão confuso, tão esbranquiçado de sua mente como a neblina que pairava sobre toda a lagoa e impedia de enxergar o que se passava na margem a que se encaminha. Recordou-se vagamente de ter visto uma cena de despedida que ia se dissipando num clarão como quando se usa flashes de uma câmera ao bater uma foto. De um momento em que estavam todos, um flash, foi-se um; outro flash, outros dois; e depois de um tempo só restavam uma das pessoas que a rodeavam em todas aquelas festas do coração. Quis segurar-lhe a mão com medo de que também esta lhe sumisse em mais um flash, o que a bruxinha dentro de si já dizia jocosamente “seguras pra que? Quem tiver de ir, irá”, mas como o adjetivo lhe cabia, teimar era sua natureza, até contra si própria, pois quem era, senão ela mesma, a bruxa da consciência? Dito e desfeito. Veio outro flash, outro laço partido. Demorou chegar este último flash. Chegou quase a acreditar que não vinha, ou melhor, que não ia. Fosse por isso que se doeu ainda mais a última partida, ou talvez o fosse porque o partido coração fora consolado com palavras de quem sabia o que vinha a suceder, e não se entristecia, ao contrário, tinha certeza que se encontrariam num outro ponto, um outro nó dessa vida que reservava dias de risos e músicas e cores. E isso fez nela criar a expectativa, mas lembrar do que já naquele momento tinha acabado.

Ficou sozinha e se jogou no barco pra ver onde poderia encontrar todos os seus. Esperava achá-los do outro lado da margem agora. Mas as vozes que vinham de lá não pareciam a deles. Talvez sim. Talvez estejam todos lá com gargantas inflamadas ou gripes, que estas modificam a voz. Cansara de pensar. Não tinha o que fazer, não havia como remar. À deriva, que se há de fazer? A correnteza segue devagar, rebolando as águas calmamente, sinuosamente. Fica a dançar a água muito silenciosamente, com passos cadenciados de um ritmo preguiçoso. Tentaremos todos remar, enfiando os braços na água, mas a força da natureza é sábia e certeira. Não atropela, não ameaça, simplesmente, calma como só ela, nos segura com uma mão, enquanto boceja, com a outra na boca. E dali não saímos e com ela não podemos. Estamos todos condenados a esperar por seus caprichos. O tempo me desanima. Eu, que quero em tudo mandar e em tudo ter as mãos firmes, como um volante. Mas não era a dona do barco e o único sentido a se ir é o que a água maliciosamente nos joga a seu bel-prazer. Ao menos chega a algum lugar. Odeio o tempo e sua malícia.   

Eu tava lá no lugar mais bizarro pra se conhecer gente interessante. Não sei também. Outros diriam que era um bom lugar. Mas o fato é que eu não me sentia confortável pra esse tipo de experiência naquele ambiente.

Ora, eu estava lá, esperando no ponto de ônibus. Viajando, como sempre, com os olhos perdidos na paisagem e repassando mentalmente os defeitos de cada pessoa que passava na minha frente. Não me venham dizer que nunca fizeram isso! Quando se está a milhares de quilometros de sua casa, num país estrangeiro, esperando um ônibus passar, não se tem muita coisa que fazer a não ser reparar nas outras pessoas. E pra mim, reparar significa classificar, categorizar. Trocando em miúdos, rotular cada ser indefeso que me pegou naquele dia infeliz.

Infeliz sim, fazia uns 34º F, e eu tava la de havaianas na frente do hospital. Meus pés congelavam. Hora de amaldiçoar pessoas alheias. Maldita enfermeira, maldito médico residente, maldita velhinha que passou na minha frente, maldito farmacêutico que me vendeu o remédio errado, maldito 17 que não chega e maldita pessoa que passar na minha frente!

Nessas horas estar em um país de língua estranha é uma bênçâo!! Você consegue xingar as pessoas em voz alta, sem precisar se reprimir! Ninguém vai entender mesmo! Passei a andar pela rua e olhar pras pessoas dizendo coisas como ‘vaca’, ‘piranha’, ‘fdp’, ‘escroto’. e outras variadades que só o vocabulário brasileiro  nos permite. Ajuda a ‘extravasar’, como diria Claudia Leite.    

Coisas que eu mais odeio: berinjela, perder dinheiro, ficar sem dormir, e dizerem que se fala espanhol no Brasil. A berinjela, até que dá pra comer de vez em quando. Mas os demais, me tiram do sério.

Naquele dia em particular, não havia nada que pudesse me irritar mais ainda. Não, sinceramente, eu não estava num dia bom. Parou do meu lado uma figura de 1,80, negro estilo philadelphiano, barbudo e com aquela tôuca típica de quem não tem nenhum senso de moda e tá com frio na careca. Devia ter uns 40 anos.

Olhou pra mim. Falei, numa tentativa de ser agradável, porém frustrada pela minha cara de bunda, ‘boa tarde’. Me respondeu com  um ‘what’s up’, que nunca consegui entender se era uma pergunta ou só uma daquelas expressões que não tem resposta. Olhou pra mim de novo, mas dessa vez fixou o olhar nas minhas havaianas. 

Era o que me faltava, pensei. Vai ficar me zuando por causa da havaiana. Não deu outra. Ele me perguntou tirando um sarro, se eu não tinha pena dos meus pés naquele frio . Apesar do que muitos dizem, eu sou uma pessoa muito pacífica, muito controlada. Sempre tento agir ocm diplomacia e educação, mesmo xingando a pessoa de jumento, mentalmente. Eu respondi que meu pé estava machucado, e que não podia calçar sapato fechado.

Eu e minha boca grande. Na hora, ele mudou de expressão. Parecia estar considerando a coisa toda. Veio a seguir o que eu nunca imaginaria. ‘Você é casada?’ A educação falou mais alto: ‘não’. Ao que ele continuou: ‘Não está interessada em arrumar seu primeiro marido americano??’

Encosta o 17.

Os americanos são realmente intragáveis. 

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